Tribuna

Relatório aponta impacto da pandemia na saúde mental de adolescentes

Por Antonio Carlos em 05/10/2021 às 09:05:11

"Estar cansada psicologicamente significa que voc√™ sente que n√£o est√° vivendo a vida, que n√£o é capaz de fazer nada. Mesmo que voc√™ seja ambiciosa, voc√™ n√£o conseguir√° atingir suas ambi√ß√Ķes porque est√° completamente derrotada psicologicamente". É assim que uma adolescente, no Egito, fala sobre sa√ļde mental. Ela n√£o est√° sozinha. Casos de depress√£o e falta de interesse s√£o identificados entre adolescentes e jovens em todo o mundo e geram preocupa√ß√£o, sobretudo na pandemia.

O relato faz parte do relatório Situa√ß√£o Mundial da Inf√Ęncia 2021 - Na minha mente: promovendo, protegendo e cuidando da sa√ļde mental das crian√ßas, lan√ßado hoje (4) pelo Fundo das Na√ß√Ķes Unidas para a Inf√Ęncia (Unicef).

O estudo apresenta uma prévia da pesquisa internacional com crian√ßas e adultos em 21 pa√≠ses conduzida pelo Unicef em parceria com a Gallup que mostra que, em média, um em cada cinco (19%) adolescentes e jovens de 15 a 24 anos, muitas vezes, sente-se deprimido ou tem pouco interesse em fazer as coisas. Para a pesquisa, foram entrevistadas aproximadamente 20 mil pessoas, por telefone, em 21 pa√≠ses. Os resultados completos ser√£o divulgados em novembro.

No Brasil, um dos pa√≠ses que participou do estudo, essa porcentagem é ainda maior que a média, 22% dos adolescentes e jovens de 15 a 24 anos dizem que, muitas vezes, sentem-se deprimidos ou sem interesse. Isso coloca o pa√≠s em oitavo lugar no ranking dos 21 pa√≠ses. Camar√Ķes aparece em primeiro lugar, com uma porcentagem de 32%. Em √ļltimo lugar, est√° o Jap√£o, com 10%.

"Interessante a gente valorizar as pol√≠ticas p√ļblicas e as institui√ß√Ķes que j√° vinham trabalhando nessa √°rea no Brasil. O pa√≠s fica em um patamar preocupante, mas n√£o é o pior. H√° pa√≠ses que n√£o t√™m institui√ß√Ķes fortalecidas nem pol√≠ticas p√ļblicas com o histórico que tem o Brasil", ressalta a oficial do Unicef no Brasil na √°rea de Desenvolvimento de Adolescentes, Gabriela Mora.

Ainda assim, Gabriela defende que é importante fortalecer as pol√≠ticas j√° existentes e atentar-se à desigualdade na oferta delas no território nacional. Além disso, é preciso que diversas √°reas organizem-se, incluindo assist√™ncia social, educa√ß√£o e sa√ļde, para oferecer atendimento e encaminhamento adequado àqueles que precisarem.

Pandemia

De acordo com o relatório, calcula-se que, globalmente, mais de um em cada sete meninos e meninas com idade entre 10 e 19 anos viva com algum transtorno mental diagnosticado. Quase 46 mil adolescentes morrem por suic√≠dio a cada ano, uma das cinco principais causas de morte nessa faixa et√°ria.

O cen√°rio j√° era preocupante antes da pandemia. Segundo os √ļltimos dados dispon√≠veis do Unicef, globalmente, pelo menos uma em cada sete crian√ßas foi diretamente afetada por lockdowns, enquanto mais de 1,6 bilh√£o de crian√ßas sofreram alguma perda relacionada à educa√ß√£o.

Segundo o estudo, a ruptura com as rotinas, a educa√ß√£o, a recrea√ß√£o e a preocupa√ß√£o com a renda familiar e com a sa√ļde est√£o deixando muitos jovens com medo, irritados e preocupados com seu futuro.

"Ainda é um tabu falar de sa√ļde mental. A pandemia nos trouxe a urg√™ncia desse tema, de quebrar esse tabu e de falar de forma acolhedora, de fomentar espa√ßos de escuta de crian√ßas e adolescentes", diz Gabriela, e acrescenta: "Numa sociedade adultoc√™ntrica, tem-se o mau h√°bito de minimizar o sofrimento de crian√ßas e adolescentes. Quando chegam essas express√Ķes, é importante levar a sério. Quando est√£o passando por um sofrimento, escutar, reconhecer isso e dar o apoio necess√°rio".

Impactos econômicos

Embora o impacto na vida dos adolescentes e jovens seja incalcul√°vel, uma an√°lise da London School of Economics, inclu√≠da no relatório, estima que transtornos mentais que levam jovens à incapacidade ou à morte acarretam uma redu√ß√£o de contribui√ß√Ķes para a economia de quase US$ 390 bilh√Ķes por ano. Isso porque os transtornos mentais diagnosticados – incluindo Transtorno do déficit de aten√ß√£o com hiperatividade (TDAH), ansiedade, autismo, transtorno bipolar, transtorno de conduta, depress√£o, transtornos alimentares, defici√™ncia intelectual e esquizofrenia – podem prejudicar significativamente a sa√ļde, a educa√ß√£o, as conquistas e a capacidade financeira de crian√ßas, adolescentes e jovens no futuro.

Segundo o relatório, faltam a√ß√Ķes direcionadas a essas quest√Ķes. Apenas cerca de 2% dos or√ßamentos governamentais de sa√ļde s√£o alocados para gastos com sa√ļde mental em todo o mundo.

"É na adolesc√™ncia que os transtornos costumam se manifestar. É importante fazer o encaminhamento adequado nessa fase da vida e apoiar a pessoa para que fa√ßa transi√ß√£o para a fase adulta com seguran√ßa e o apoio necess√°rio. Se for o caso, garantir o apoio do servi√ßo de sa√ļde e com isso prevenir e garantir que tenham uma vida adulta mais saud√°vel. Se n√£o houver acolhimento na adolesc√™ncia, na vida adulta pode haver uma manifesta√ß√£o mais severa", diz Gabriela Mora.

O relatório Situa√ß√£o Mundial da Inf√Ęncia 2021 pede que governos e parceiros dos setores p√ļblico e privado se comprometam, comuniquem e ajam para promover a sa√ļde mental de todas as crian√ßas, todos os adolescentes e cuidadores, proteger os que precisam de ajuda e cuidar dos mais vulner√°veis.

Para isso, é necess√°rio, de acordo com o organismo internacional, investimento urgente em sa√ļde mental de crian√ßas e adolescentes em todos os setores, n√£o apenas na sa√ļde, para apoiar uma abordagem de toda a sociedade para preven√ß√£o, promo√ß√£o e cuidados.

É necess√°ria também a quebra do sil√™ncio em torno da doen√ßa mental, abordando o estigma e promovendo uma melhor compreens√£o da sa√ļde mental e levando a sério as experi√™ncias de crian√ßas e jovens. Além disso, a integra√ß√£o e amplia√ß√£o de interven√ß√Ķes baseadas em evid√™ncias nos setores de sa√ļde, educa√ß√£o e prote√ß√£o social – incluindo programas parentais que promovem cuidados responsivos e de aten√ß√£o integral e apoiam a sa√ļde mental de pais e cuidadores.

Em parceria com diversas organiza√ß√Ķes, o Unicef lan√ßou a plataforma Pode Falar que disponibiliza gratuitamente materiais de apoio e até mesmo um atendimento por chat. O site é voltado para pessoas de 13 a 24 anos.

Fonte: Agência Brasil

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