BORA PRADO

Cursinhos preparam indígenas e quilombolas para provas do Enem

Por PRADO AGORA em 30/10/2023 às 08:07:51

Com 25 anos de aplicação, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que ter√° provas nos dias 5 e 12 de novembro, tem transformado o acesso às instituições de ensino superior e também os cursinhos preparatórios do pa√≠s.. Alguns desses cursinhos passaram a se preocupar com a adaptação para receber alunos ind√≠genas e quilombolas. .

Um desses cursinhos é o Colmeia, concebido na Faculdade de Ci√™ncias Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em Limeira, interior de São Paulo, em 2010. No final do ano passado, a iniciativa, idealizada pela professora Josely Rimoli, conseguiu ser elevada de patamar e se tornou um programa da universidade, o que pressupõe maior apoio institucional.

O Colmeia tem aulas à noite e incorporou a modalidade online em 2019. São 17 professores, entre graduandos e pós-graduandos da Unicamp, que dão aulas de linguagem, exatas, biologia e ci√™ncias humanas.

Em entrevista concedida à Ag√™ncia Brasil, a Josely Rimoli destacou que a atuação da equipe do cursinho pré-vestibular não deve parar no ensino, e sim se estender ao acompanhamento do aluno aprovado quando ingressa no ensino superior. O objetivo do Colmeia, portanto, é oferecer o suporte necess√°rio e garantir que o estudante est√° se integrando bem na comunidade acad√™mica e, mais, que tem condições de se manter até o final do curso, inclusive financeiramente. Assim, pode-se dizer que pensa na efetividade de ações de perman√™ncia estudantil.

Além disso, para falar de igual para igual, respeitando o chamado "lugar de fala", reivindicado por pessoas que fazem parte de grupos minorizados, como os ind√≠genas e quilombolas, o Colmeia permite que os alunos conversem com alguém de perfil parecido, na hora de receber orientações e acolhimento, algo a que dedicam um dia da semana. Um estudante ind√≠gena dialoga com um instrutor também ind√≠gena, mesmo cuidado com que se trata a parcela quilombola das turmas, formadas, ainda, por adolescentes da Fundação Casa, mulheres e ribeirinhos.

Ensino b√°sico e acesso à internet

Josely pontua que as falhas deixadas pelas escolas em que os alunos do cursinho estudaram v√™m, com frequ√™ncia, à tona, como ocorreria com qualquer estudante, independentemente de se pertencem ou não a grupos minorizados. Por isso, a equipe de professores entendeu que era preciso ajud√°-los a fixar os conte√ļdos em vésperas de provas.

"A gente compreende que é importante dar acesso, contribuir para que acessem o ensino superior. É um direito à educação. E, uma vez que entraram [na instituição de ensino], precisam ter apoio à perman√™ncia", declara a coordenadora do Colmeia, que também é respons√°vel pela acolhida de candidatos ind√≠genas que passam no vestibular da Unicamp.

Josely conta que um levantamento organizado pelo programa recentemente revelou que 83% dos alunos inscritos estudam pelo celular, o que faz com que a atenção se volte para o acesso à internet, geralmente obtida por meio de pacotes de dados e que se esgota rapidamente, à medida que vão assistindo às aulas. "Um quilombola do Vale do Ribeira atravessava o rio, à noite, em uma canoa, sozinho, para pegar sinal. É uma batalha por vez ou v√°rias ao mesmo tempo", diz a professora universit√°ria.

Pertencimento

No caso do curso Jenipapo Urucum, da Associação Nacional de Ação Indigenista (Ana√≠), as estudantes que assistem às aulas e são mulheres e meninas ind√≠genas, muitas vezes, até mesmo o aparelho celular é compartilhado com outros membros de suas fam√≠lias, não sendo de uso exclusivo delas, o que marca mais um grau de dificuldade de acesso. Como as alunas não podem prescindir dos aparelhos eletrônicos, as organizadoras do cursinho se mant√™m constantemente mobilizadas para conseguir doações de tablets, computadores e celulares.

Conforme verificou o Instituto Semesp, o contingente de estudantes ind√≠genas, no ano de 2021, era de pouco mais de 46 mil pessoas, o equivalente a 0,5% do total de alunos do ensino superior, proporção que ainda pode melhorar. A entidade também descobriu que o g√™nero feminino predomina entre os alunos ind√≠genas, correspondendo a 55,6%.

Aluna do Jenipapo Urucum, a jovem Suziany Kanindé, de 18 anos, vive na zona rural de Aratuba (CE) e estuda em uma escola ind√≠gena. Ela descobriu o cursinho através de seu pai, que viu um post de divulgação no Instagram.

Suziany planeja estudar psicologia em Fortaleza, tanto por se identificar com a área como por ver que há uma lacuna de profissionais desse campo no atendimento ao seu povo, conciliando, assim, os estudos com a vontade de manter intacto ao máximo o convívio com os familiares. Como vantagem do caráter singular do cursinho indígena, ela cita a oportunidade de conhecer o modo de viver de outros povos originários.

"São diferentes povos, de todo o Brasil. Então, é uma chance de conhecer outras pessoas, cultura, tradições", observa ela, que utiliza um tablet para ver as aulas, ministradas à noite, no contraturno da escola, e j√° reconhece avanços no desempenho em l√≠ngua portuguesa e ci√™ncias da natureza, com o aux√≠lio dos professores do cursinho, que são ind√≠genas e não ind√≠genas.

Perguntada sobre como espera que seja sua adaptação na universidade, Suziany exterioriza certa apreensão. "A gente conversa, dentro do cursinho, sobre a realidade dentro da universidade. No cursinho, a gente est√° entre a gente. J√° na universidade, é outra realidade. A gente encontra uma série de dificuldades, quando vai para fora, sai da zona de conforto", afirma ela, que também atua no Museu Ind√≠gena Kanindé.

Política de cotas

A jovem pataxó hã-hã-hãe Narrary Luc√≠lia, de 18 anos, também foi aluna do Jenipapo Urucum e chegou até ele pela sua mãe, que é monitora do cursinho, além de ter sido aluna, em outro momento. Para Narrary, que agora reduziu a frequ√™ncia às aulas, depois de começar a cursar nutrição em uma faculdade particular, com bolsa integral, também é fundamental a sensação de pertencimento que a turma gera. "A maioria das pessoas que est√° nas universidades não é ind√≠gena. Acho esse projeto muito bonito. Algum professor, às vezes, inicia a aula colocando um v√≠deo de algum ritual, as alunas se juntam e, quando h√° duas de um mesmo povo, cantavam juntas. E conhecer também as culturas das meninas", afirma.

Para Narrary, um dos fatores em que o governo acertaria, em termos de ampliação da presença de ind√≠genas no ensino superior, seria a aposta no ensino b√°sico, junto com pol√≠ticas afirmativas, ou seja, cotas que permitam um maior acesso a eles. "As escolas ind√≠genas são muito prec√°rias. Às vezes, h√° poucos ind√≠genas fazendo a prova do Enem porque não se sentem capazes. O ensino na aldeia não é tão bom assim e acaba que muitas pessoas achavam que os ind√≠genas eram atrasados. Por causa disso, acabam sem querer estudar, por não se sentirem capazes. É por isso que não t√™m tanta representatividade [nas instituições de ensino superior]", resume ela.

Fonte: Agência Brasil

Comunicar erro
anuncie aqui 2

Coment√°rios

anuncie aqui 3